sexta-feira, 9 de abril de 2010

Secretaria de Direitos Humanos vai acompanhar julgamento de mandantes do assassinato de Dorothy Stang

Secretaria de Direitos Humanos vai acompanhar julgamento de mandantes do assassinato de missionária
Gilberto Costa, Repórter da Agência Brasil

A Secretaria de Direitos Humanos deverá acompanhar os julgamentos de Vitalmiro Bastos de Moura (Bida) e Regivaldo Pereira Galvão (Taradão), supostos mandantes do assassinato da missionária Dorothy Stang ocorrido em Anapu (PA), em 12 de fevereiro de 2005.

A secretaria confirmou o envio de dois dirigentes, além de representantes do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH).

A medida atende a pedido das irmãs da congregação Notre Dame de Namur, da qual fazia parte Dorothy Stang. As irmãs também pedem que o Ministério da Justiça acompanhe os julgamentos. O ministério informou que estudará a possibilidade de enviar representantes assim que receber o pedido.

Além dos “observadores institucionais”, as irmãs pedem “atenção” da seccional paraense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da OAB nacional “para condutas profissionais que margeiam ética e leis”.

No dia 31 de março, os advogados de defesa de Vitalmiro, conseguiram adiar o julgamento em 2ª instância, marcado para aquela data. A defesa não compareceu ao júri, o que forçou a convocação da defensoria pública e o estabelecimento de nova data para o julgamento: 12 de abril.

A defesa de Vitalmiro protocolou, no dia 31 de março, um pedido de adiamento do júri argumentando que o pedido de habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF) para a soltura de Bida, preso desde o dia 4 de fevereiro, ainda não havia sido analisado. O habeas corpus não tem efeito suspensivo sobre o julgamento. O relator do pedido no STF, ministro Cezar Peluso, ainda não emitiu parecer.

As irmãs de Notre Dame pedem mobilização da sociedade civil para os julgamentos e reiteram “a continuidade da violência e dos crimes em Anapu”.

Para a irmã Rebeca Spires, há relação entre a violência e a impunidade. “O fato de esses mandantes estarem impunes faz com que os crimes continuem lá em Anapu, assim como ocorre em outros lugares porque a impunidade é generalizada”.

“Essa questão da impunidade faz perpetuar os crimes. Isso é uma vergonha para o Pará, para o Brasil. Enquanto não quebra essa impunidade, o crime organizado continua”, assinalou a missionária.

Vitalmiro Bastos de Moura foi condenado a 30 anos de prisão em 2008, no primeiro julgamento, e teve o benefício previsto em lei que prevê um novo júri para condenados a mais de 20 anos de prisão. No segundo julgamento, ocorrido em 2009, ele foi absolvido. O Ministério Público recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), que anulou a sentença.

O julgamento de Regivaldo Pereira Galvão está previsto para o dia 30 de abril. A Agência Brasil tentou ouvir os advogados de defesa de Regivaldo e Vitalmiro, mas não recebeu retorno.

Caso Dorothy: Os mandantes não podem ficar impunes!


No próximo dia 12, Vitalmiro Bastos de Moura volta ao banco dos réus, para ser julgado pelo tribunal do júri, por sua participação no assassinato da missionária Dorothy Stang. Dia 30, será levado a julgamento de Regivaldo Pereira Galvão. Os dois fazendeiros faziam parte de uma associação criminosa que, em fevereiro de 2005, decidiu tirar a vida da religiosa oferecendo 50 mil reais, através do intermediário Amair Feijoli para Raifran das Neves e Clodoaldo Batista assassinarem Irmã Dorothy.

Os dois fazendeiros eram “sócios” em negócios criminosos no município de Anapu, envolvendo, grilagem de terras públicas, desmatamento e extração ilegal de madeira, trabalho escravo, ameaças e expulsões violentas de posseiros dos Projetos de Desenvolvimento Sustentáveis.

As denúncias de variados crimes praticados por Bida e Regivaldo, nos anos que antecederam ao assassinato da missionária, feitas pela CPT de Anapu, através de Irmã Dorothy, e também pelos movimentos sociais locais, chegaram às autoridades estaduais e federais, resultando em diversas ações do poder público contra os dois fazendeiros. Em junho de 2004, Bida e Regivaldo foram autuados por trabalho escravo no lote 55; em julho também de 2004, a Polícia Federal pede a prisão dos dois por crimes de trabalho escravo, grilagem de terra, formação de quadrilha e porte ilegal de armas; em agosto e novembro do mesmo ano os dois foram multados em 3 milhões de reais pelo IBAMA por desmatamento e queimada ilegais no lote 55.

Tendo seus crimes desvendados e seus interesses econômicos contrariados, pelas denúncias feitas por Dorothy e os movimentos sociais de Anapu, os dois planejaram a morte da missionária: “enquanto não se der um fim nesta mulher nós não vamos ter paz nestas terras em Anapu”, sentenciou Regivaldo a Bida, “Fala com Raifran que se ele quiser tem 50 mil para matar a irmã Dorothy”, foi a ordem dada por Bida através do intermediário Amair. Além de prometer os 50 mil, que seriam pagos por ele e Regivaldo, Bida forneceu a arma, a munição, deu proteção aos criminosos em sua fazenda, orientou-os a sumir com a arma do crime, como fugirem do cerco da polícia e ainda garantiu advogado para defendê-los, sob a condição de que não revelassem o nome dos mandantes.

A CPT, o comitê Dorothy e demais entidades que lutam por justiça no caso Dorothy, alertam a sociedade e o poder judiciário sobre as manobras da defesa dos fazendeiros com o objetivo de protelar os julgamentos e inocentá-los. Aceitar e se submeter a essas manobras faria aumentar ainda mais o descrédito da sociedade no Poder Judiciário.

Prometeram pagar para que Raifran e Clodoaldo assassinassem a religiosa e agora estão pagando para que os executores e intermediário mudem seus depoimentos para inocentar os mandantes. Documentos juntados ao processo comprovam que o DVD usado no último julgamento que absolveu Bida e que foi anulado pelo Tribunal de Justiça por contrariar as provas existentes nos autos, custou 300 mil reais aos mandantes. Podem continuar comprando os assalariados do crime, mas não comprarão a justiça.

O crime contra Dorothy foi premeditado, ficando fartamente comprovada a participação de cada um de forma hierárquica: mandantes, intermediário e executores, cada um cumprindo seu papel na ação criminosa. A condenação de Vitalmiro e Regivaldo é um passo importante no combate à violência e impunidade no campo no Pará, Estado onde 62% dos crimes no campo nas últimas décadas sequer foram investigados e o único mandante condenado, que cumpre pena atrás das grades é Vitalmiro Bastos de Moura, conforme dados da CPT Pará.

Dorothy vive na luta do povo!

Belém-PA, 09 de abril de 2010.
Comissão Pastoral da Terra – CPT Pará
Comitê Dorothy
* Imagem obtida no site da Revista Época (Veja AQUI)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

CASO DOROTHY STANG: É HORA DE FAZER JUSTIÇA!

É HORA DE FAZER JUSTIÇA!

  • 7 de junho de 1931 – Nasceu, na cidade de Dayton, no Estado de Ohio, Dorothy Stang. Veio para o Brasil em 1966, fazendo parte de uma congregação internacional da Igreja Católica – Irmãs de Notre Dame de Namur – que tem como princípio ajudar os mais pobres e marginalizados.

  • 12 de fevereiro de 2005 – A missionária Dorothy Stang é covardemente assassinada em Anapú, Pará, por defender uma sociedade mais justa para os trabalhadores rurais do município.

  • 31 de março de 2010 – Um dos mandantes do crime, o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, teve seu terceiro julgamento adiado. Ele é apenas a ponta de uma rede de criminosos que tramaram contra a vida de Dorothy.

Basta! No Estado de Direito em que vivemos, há recurso para tudo. Condenações, absolvições, Habeas Corpus, anulações, adiamentos, um vaivém sem fim. A sociedade a tudo assiste perplexa, sem entender o que se passa. Só um fato concreto nos resta de tudo isso: um crime vil foi cometido há cinco anos e os mandantes ainda não foram julgados definitiva e seriamente.

É Hora de fazer justiça! Não podemos aceitar a impunidade e a mentira. O dinheiro não pode falar mais alto, os grileiros, fazendeiros e madeireiros de terras do Pará não podem fazer o que querem, como se neste Estado não existissem leis.

Por isso, chamamos toda a sociedade a se solidarizar com esta causa e participar da mobilização que irá ocorrer durante este julgamento.

Venha, participe conosco nesta luta contra a Violência e a Impunidade.

DATA: 12 de abril de 2010
LOCAL: Fórum Criminal de Belém - Praça Felipe Patroni - Cidade Velha
INÍCIO: 07:30h com celebração inter-religiosa.

Comitê Dorothy

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Amor e Verdade abraçam Justiça e Paz

O Amor e a Verdade se encontram, a Justiça e a Paz se abraçam (Sl 85,11).

Outra vez adiou-se o encontro da verdade com o amor e não foi possível contemplar o abraço da Justiça com a Paz. Dia 31 de março estava sendo aguardado como o dia em que se iniciaria o reverso de uma história. A condenação de um sistema que tira a vida de pessoas de bem e proclama a impunidade de quem mata. A história dos 46 anos de golpe militar seria revertida por um ato que entraria para a história pelas portas do fundo. Estaríamos cantando que Deus “derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes” (Lc 1,52). Não mais o poder econômico como senhor da história, não mais a ganância como virtude, não mais a violência como norma de vida. Aguardava-se o julgamento, não somente de duas pessoas, mas de duas causas. A vítima, Ir. Dorothy Stang, o acusado, Vitalmiro Bastos de Moura. Duas causas no tribunal do Júri: a esperança, a simplicidade, a vida, a partilha, a doação, o respeito, a paz e, do outro lado, o poder, a mentira, a ganância, a arrogância, a exploração, a violência.

Novamente fomos vítimas de golpe. Artimanhas do poder adiaram o julgamento e tristemente o amor e a verdade não puderam se encontrar, a justiça e a paz não puderam se abraçar. Sem este encontro entre o amor e a verdade, entre a justiça e paz, nossa vida estremece, nosso planeta derrama lágrimas, nosso coração vive aos sobressaltos e nossas florestas respiram ar contaminado. Ir. Dorothy e sua gente, as Irmãs de Notre Dame de Namur e o Comitê Dorothy, a Vida Religiosa e toda a Igreja, todas e todos mergulhamos no mistério da Paixão do Senhor e cremos na fulgurante aurora da Ressurreição. A ressurreição será celebrada, liturgicamente, neste dia 04 de abril. A ressurreição de Ir. Dorothy será reafirmada no dia 12, quando o Amor e a Verdade se encontram, a Justiça e a Paz se abraçam (Sl 85,11).

Texto da Irmã Zenilda Luzia Petry-IFSJ-Presidente da Conferência de Religiosos do Brasil/ RegionalUm

Ainda assim este blog deseja a todos uma FELIZ PÁSCOA!

terça-feira, 30 de março de 2010

Ir. Dorothy, descanse em Paz!




Dia 31 de março, dia em que se recorda os 46 anos de golpe militar no Brasil, teremos um novo julgamento de Vitalmino Bastos, o Bida, acusado de ser um dos mandantes ou intermediários do assassinato de Ir. Dorothy, condenado em primeiro julgamento e absolvido em segundo. Agora volta ao banco dos réus e a esperança é que haja justiça.
Em vésperas de mais este julgamento emblemático do “Caso Dorothy”, um sentimento habita no coração de muitas pessoas: que Ir. Dorothy, finalmente, possa descansar em paz. Pois cremos que ela só descansará em paz quando houver justiça.
Assim um sentimento comum perpassa o coração e a mente de todos e todas que acreditam na mesma causa pela qual Ir. Dorothy foi assassinada. Que Ir. Dorothy possa descansar em paz junto de Deus e de todos aqueles e aquelas que já tombaram pela causa do bem e que regaram nossa terra com seu sangue.
Nesta vigília deste novo julgamento, nós confessamos, a pleno pulmões, a afirmação do salmista: Amor e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam (Sl 85,11).
Sim, o amor e a verdade vão se encontrar, pois o amor de Ir. Dorothy por esta terra e pelas pessoas que nela habitam trará consigo a verdade dos fatos e, assim, a justiça e paz, finalmente, se abraçarão. E quando a justiça se abraçarem, Ir. Dorothy poderá descansar em paz.
Ir. Zenilda Luzia Petry, IFSJ
Presidente da CRB Regional

sexta-feira, 12 de março de 2010

HIDROPIRATARIA NA AMAZÔNIA?

O jornalista Lúcio Flávio Pinto apresenta denúncias feitas pela revista jurídica Consulex no final do ano de 2009, sobre uma suposta ocorrência de roubo de água na Amazônia por países estrangeiros, com a intenção de alertar, principalmente, os brasileiros, até que ponto o interesse do mundo sobre as riquezas da Amazônia pode chegar. Para ler a matéria completa acesse a página: http://colunistas.yahoo.net/posts/521.htm

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

''Muitas ameaças de morte vieram junto com Belo Monte, por eu ser contra a usina'', diz Dom Erwin Kräutler

Assim como a missionária norte-americana Dorothy Stang, assassinada há cinco anos por contrariar os interesses de grileiros da Amazônia, o bispo da Prelazia do Xingu e presidente do Conselho Indigenista Missionário, Dom Erwin Kräutler, assume os riscos de sua opção por defender os direitos humanos da população pobre da região.
Ameaçado de morte por ter denunciado crimes, como o abuso sexual de menores por homens ricos de Altamira (PA), Dom Erwin, como é conhecido, vem sendo criticado por se opor ao projeto do governo federal de construir a hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (PA), obra que irá deslocar famílias ribeirinhas e povos indígenas, modificando a biodiversidade local.
Confira entrevista com o missionário, em que ele fala sobre a impunidade de crimes, como o que matou Dorothy e sua visão sobre a construção de usinas, que vêm sendo impostas ao povo amazônico por empresas e governantes.

Para ler a entrevista completa clique no nome do entrevistado acima.

A entrevista é de Fabíola Munhoz e publicada por Amazonia.org.br, 17-02-2010.

Quinto aniversário do assassinato de Irmã Dorothy Mae Stang

"não somente o evangelho de Deus,

mas até a própria vida"

1 Tes 2,8

Cinco anos passaram desde aquele fatídico sábado em que Rayfran e Clodoaldo, empregados de Tato, cruzaram o caminho da Irmã Dorothy, não para cumprimentá-la, mas para executar o sinistro plano, há tempo concebido pelo consórcio do crime, e cumprir o nefasto papel de matar a Irmã que dedicou toda a sua vida aos pobres.

Os pobres de hoje não são apenas uns explorados e oprimidos. São excluídos, expulsos da sociedade e da terra por serem considerados "supérfluos" (cf. DAp 65). Irmã Dorothy fez a opção de sua vida exatamente por essas pessoas, por essas famílias "sem eira nem beira", desprezadas e maltratadas, sem perspectivas num mundo em que perderam sua pátria.

Foi aos pobres, que Deus assegurou seu amor incondicional e preferencial. As palavras do profeta Jeremias calaram fundo no coração de Dorothy: "Ponde em prática a justiça e o direito, livrai o oprimido das mãos do opressor, nunca prejudiqueis ou exploreis o migrante, o órfão e a viúva nem jamais derrameis sangue inocente no país" (Jer 22,3). Dorothy não apenas acompanhou as famílias de Anapu e da Transamazônica na busca de seus direitos e defendeu seus interesses, peregrinando de repartição em repartição, procurando falar com prefeitos, vereadores, deputados, senadores. Dorothy fez e foi muito mais: Ela amou! E esse amor fez vibrar cada uma das fibras de seu coração. Ela foi mãe, foi irmã, foi filha de seu povo! Dorothy nos lembra a passagem tão sugestiva na primeira carta de São Paulo aos Tessalonicenses: "Apresentamo-nos no meio de vós cheios de bondade, como u'a mãe que acaricia os seus filhinhos. Tanto bem vos queríamos que desejávamos dar-vos não somente o evangelho de Deus, mas até a própria vida, de tanto amor que vos tínhamos" (1 Tes 2,7-8).

Naquela manhã de sábado, 12 de fevereiro de 2005, ela testemunhou "o evangelho de Deus", derramando o seu próprio sangue. Foi morta porque amou sem medida, foi trucidada porque entendeu que seu lugar era "ao lado dessas pessoas constantemente humilhadas" [1] foi assassinada porque abraçou "a justiça e o direito" e lutou para livrar "o oprimido das mãos do opressor" (Jer 22,3), foi eliminada do meio do povo pobre porque contrariou os interesses e ambições de "gente que se considera poderosa", como ela mesma costumava expressar-se.
Dorothy viveu em vida a opção pelos pobres sem deixar-se intimidar ou constranger. Com a sua morte, porém, Dorothy ultrapassou todos os limites e fronteiras. Sacudiu o mundo, descerrando a face ensanguentada da Amazônia, fazendo ecoar os gritos e revelando as dores que golpeiam os povos que aqui vivem.

Cinco anos passaram! Cinco anos, também repletos de tramas e trâmites judiciais. Prisões efetuadas com grande alarde, sentenças condenatórias solenemente proferidas e com a mesma solenidade anuladas, pedidos de habeas corpus deferidos e liberdade provisória concedida. Sempre novas versões do crime, chegando até ao cúmulo absurdo de transformar a vítima em ré, alegando legítima defesa.

Há poucos dias um dos acusados é preso outra vez [2] . Foi condenado a 30 anos e absolvido em um segundo julgamento. Agora outro recurso consegue anular o veredicto anterior e o fazendeiro recebe novamente voz de prisão. E a imprensa divulga o fato como se fosse a prova mais convincente de que a Justiça funciona. Só tem um detalhe! Nós todos já estamos saturados de tais notícias. Em breve, algum advogado experto vai achar outra brecha na legislação e o homem conseguirá mais um alvará de soltura para acrescentar à sua coleção. O mesmo se diga do tal desaforamento anunciado agora [3]. Precisava cinco anos para chegar a essa conclusão?!

E o consórcio do crime? Nada mais tem a temer! A poeira há tempo sentou. Afinal, já há quem responde pelo homicídio! Por que procurar outros para submetê-los a processos complicados? Por que investigar a quem já não quer lembrar-se de nada? E aqueles que de longa data prepararam o terreno e o ambiente para que a irmã fosse morta? Agora negam tudo! Há pessoas que andaram de cima para baixo com a Dorothy e com ela comeram farofa na casa da Prelazia. Hoje estão do outro lado! Habilitaram-se a jogar no time adversário! É o salmo 41 bem atualizado: "Até meu amigo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou o calcanhar contra mim" (Sl 41 (40),10).

Neste ano de 2010, o mês de fevereiro, em que Irmã Dorothy foi assassinada, ganha mais uma razão para tornar-se histórico. A Amazônia que Dorothy tanto defendeu e pela qual doou sua vida, recebe mais um golpe, desta vez de proporções que ainda nem sequer podemos vislumbrar. O Presidente da República me prometeu pessoalmente [4] a continuação do diálogo sobre o projeto Belo Monte. No dia primeiro deste mês o Ibama tornou pública a licença prévia para que o Xingu fosse barrado. 1522 km2 de destruição à vista: 516 km2 de área inundada e 1006 km2 de área deteriorada porque faltará água!

Todas as 40 condicionantes que a Licença Prévia elenca para serem observadas pela empresa que sairá vitoriosa no leilão, nada mais são que uma confissão pública do Governo que o projeto, se for executado, terá consequências desastrosas. Ao exigir um bilhão e meio de reais em projetos para mitigar os efeitos, o próprio Governo admite de antemão que Belo Monte causará um terrível e irreversível impacto sobre a Amazônia. Onde já se viu tanto esmero para atenuar sequelas antes de iniciar a obra? É a prova cabal de que o próprio Governo sabe que está dando um tiro no escuro. Até esta data, o Ibama nem sequer conseguiu identificar a abrangência e intensidade dos impactos. Como esse órgão então pode realmente atestar a viabilidade de Belo Monte?

Lamentavelmente, quem sofrerá os trágicos efeitos não serão os tecnocratas em Brasília e políticos míopes, mas os povos desta região da Amazônia. O Xingu nunca mais será o mesmo. O solo será danificado, a floresta devastada e das águas turvas e mortas emergirão apenas os esqueletos esbranquiçados das outrora frondosas árvores.
É a política do rolo compressor, é a tática do fato consumado, é o método do autoritarismo que não aceita contestação!

E Dorothy, no seu túmulo, chora a desgraça anunciada!
Mas não deixa de encorajar-nos na luta em favor da vida contra projetos de morte. Nosso caminho é aquele traçado pelo Evangelho. Somos enviados por Jesus para anunciar a Boa Nova aos pobres e denunciar o que se opõe ao Evangelho da Vida, para quebrar as algemas da opressão e tirania, para defender o lar que Deus criou para todos nós e as futuras gerações, e proclamar um ano de graça do Senhor (cf. Lc 4,18-19).


Amém! Marána thá! Vem Senhor Jesus!


Anapu, 12 de fevereiro de 2010


Erwin Kräutler, Bispo do Xingu

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ir. Dorothy, Exemplo de Vida religiosa e Profetismo

No próximo 12 de fevereiro de 2010, celebramos cinco anos do brutal extermínio de Ir. Dorothy Stang, missionária norte-americana que atuava em Anapú – PA. No entanto, mesmo após cinco anos de morte, Dorothy vive! A tentativa de calar aquela que era a voz forte dos camponeses, que não tinham a quem recorrer diante de tanta injustiça e humilhação que vinham sofrendo durante anos, se transformou grande fracasso. Fracassaram os matadores, mandantes, grileiros, madeireiros, grande proprietários de terra, influentes políticos, todos que tentaram calar Ir. Dorothy fracassaram, pois sua voz continua a ressoar, agora de forma mais forte e mais clara, multiplicando-se a cada dia através da voz de homens e mulheres de boa vontade que ao conhecer a luta daquele povo que Dorothy tanto amava, engrossam a fileira dos que lutam por um Pará onde reinam a justiça e a paz.


O martírio de Ir. Dorothy é fruto de uma vida doada pelo anúncio do Evangelho. Anunciar o Amor e denunciar a Injustiça que gera a morte. Essa é a missão dos profetas do nosso tempo, e assim foi a vida de Ir. Dorothy. A vida religiosa fundamenta-se no próprio Cristo, que em sua vida não se cansou de anunciar o Reino e denunciar os erros de uma religião opressiva. O Reino anunciado e inaugurado por Cristo Jesus não se tratava de uma utopia, de um sonho, mas era realidade já vivenciada por aqueles que com ele conviveram.


Esse exemplo que nos vem do Senhor era vivido em toda sua intensidade e sinceridade na vida de Dorothy. No seu jeito simples e acolhedor vivendo pobre com os pobres, partilhando da vida do povo sofrido da Amazônia, porém dando-lhes oportunidade de vislumbrar um novo horizonte, onde o desenvolvimento não se dá através da destruição da floresta, mas da convivência do homem com a mata e com tudo o que ela pode nos oferecer enquanto ainda está de pé. Essa idéia mexeu com todos aqueles que sempre defenderam a bandeira da destruição para o progresso. Mexeu com ricos e poderosos, no entanto, o pior de tudo para eles foi perceber que o que ela defendia era possível, uma forma de manejo sustentável da floresta, que eles viam como obstáculo para o desenvolvimento da região.


Foram grandes os obstáculos enfrentados por ela para dar voz ao povo da floresta, mas ela conseguiu e ainda consegue. Não desanimou, não se calou, não se acovardou, não morreu. Sim, Ir. Dorothy não morreu, continua viva em cada um que não deixa de lutar pelo ideal que sempre pautou sua vida, estar ao lado dos que não têm voz nem vez. Continua viva cada vez que fazemos o mundo lançar um olhar sobre o povo amazônida, o povo simples da floresta, que viva da floresta viva.


A vida religiosa deve ser pautada na vivência concreta do Evangelho, assumindo assim, uma postura profética diante da sociedade em que vivemos, não se calando diante das injustiças e buscando meios eficazes de fazer valer o direito fundamental da pessoa humana, que é o direito à vida. “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância”. A vida religiosa tem seu fundamento no próprio Cristo que veio dar vida ao mundo que jaz na sombra do pecado e da morte. Através do testemunho concreto de sua vida o religioso deve transparecer o rosto do próprio Cristo, que é vida para o seu povo.


O profetismo entra então, como conseqüência imediata do viver em Cristo. É impossível seguir Cristo e se acovardar diante da injustiça. O seguimento gera uma configuração ao mestre. Somos Configurados a Ele e Dele aurimos a força necessária para anunciar o Reino de Deus e as injustiças do mundo presente. Assim, o profeta é aquele que vive no mundo, mas não se permite escravizar por ele. Não se deixa prender nem iludir. Esse exemplo podemos ver de forma clara no testemunho da vida de Ir. Dorothy, que agora o mundo começa a conhecer. Por isso, um agricultor exclamou com grande certeza no dia de seu sepultamento: “Dorothy não foi sepultada, foi plantada”. A exemplo do grão de trigo que para dar fruto tem que cair no chão e morrer, assim o mártir-profeta, não abre mão de dar sua vida pelo Reino de Deus.


Hoje, após cinco anos, já vemos os frutos que brotam da semente Dorothy que foi plantada na terra fértil de Anapú. É o povo que não se cansa de lutar, é o mundo que se interessa por esse povo, é a vos do profeta que não pode ser calada, é a voz de dorothy que continua a ressoar pelo mundo: “Cada dia é um desafio, nós temos que conscientizar as pessoas que tudo que precisamos é amar e cuidar da floresta”.


Assumamos nossos postos na frente de combate, sejamos também nós capazes de fazer com que a voz de dorothy não se cale, tenhamos coragem e perseverança para não deixar o sonho do povo da floresta, por conseguinte o sonho de Ir. Dorothy ser esquecido. Também nós somos chamados a ser profetas do nosso tempo! Façamos a nossa parte! Lutemos por uma amazônia viva! Lutemos por uma amazônia livre! Lutemos por uma amazônia onde reina a justiça e impere a Paz!

Pe. Carlos Augusto Azevedo da Silva, tem 27 anos, é Presbítero incardinado na Arquidiocese de Belém e pároco de Sta. Maria Goretti, no bairro do Guamá.
http://padrecarlosaugusto.blogspot.com/

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ir. Dorothy: uma profecia calada, mas não silenciada.

Então o Senhor estendeu a sua mão e tocou-me a boca e me disse: ‘Eis que ponho as minhas palavras em tua boca. Eu te constituo sobre as nações e sobre os reinos, para arrancar e destruir, para exterminar e demolir, para construir e para plantar’ (Jr.1,9-10).

Dura e fascinante a ordem que o profeta recebe de seu Deus. Sistemas, projetos, mentalidades, nações, que se opõem aos desígnios de Deus, estão sujeitos à atuação vigorosa da profecia. Assim ontem, assim hoje. A profecia é a “via respiratória” dos pobres, é a “válvula” por onde o clamor dos empobrecidos e excluídos chega a Deus.
O profeta Jeremias, em torno do ano 620 a.C., em Anatot, próximo de Jerusalém, na Judéia, encarna esta função a serviço do seu povo. É a voz dos que não conseguem clamar. Não se calou até que outros o calaram, mas sem conseguir silenciá-lo. Sua mensagem ecoa ainda hoje no mundo. Não se pode silenciar um profeta.

Em Anapu, PA, coração da Amazônia brasileira, uma pequena-grande mulher, uma religiosa consagrada, uma norte-americana brasileira, na travessia do século XX para o XXI, tocada pela mão do Senhor, foi constituída para arrancar e demolir por um lado, e por outro, para construir e plantar. Foi igualmente a voz dos que não são considerados em nossa sociedade que se estrutura em torno de uma mentalidade desumanizante. Também Ir. Dorothy, como o profeta Jeremias, foi calada...

Já se vão cinco anos em que balas assassinas, disparadas por mãos assassinas, ordenadas por mentes assassinas, calaram a profecia de Ir. Dorothy. Mas sua profecia também não foi e não será silenciada. Seu clamor ecoa pela imensidão da floresta amazônica, perpassa nossas cidades, penetra em nossos lares, transpõe as mais diversas fronteiras. Neste seu quinto ano de morte, nossa profissão de fé: Ir. Dorothy: uma profecia calada, mas não silenciada

Ir. Zenilda Luzia Petry –IFSJ
Presidente da CRB Regional de Belém
Pará e Amapá